sexta-feira, agosto 02, 2002

Coitadinho deste bloco abandonado... Penso que vou adotá-lo e enchê-lo de textos subversivos e talvez até revoltosos, além de textos inúteis e, ah, sim, já é uma idéia de tempos, os pornográficos, é claro.
Textos pessoais, íntimos e secretos, mesmo na rede.
Bem-vindo ao maravilhoso mundo da Patrícia.

quinta-feira, junho 13, 2002

Caro visitante, este blog está de mudança. Como sou muito lenta em meus movimentos, não será nada brusco. Mas já aviso: em julho, todo este conteúdo e mais o que escrevi nos últimos tempos e não publiquei aqui, estarão reunidos no
www.desvariosdepatricia.blogspot.com
Você será bem-vindo.

quinta-feira, maio 23, 2002

Não tenho escrito muito.

terça-feira, abril 23, 2002

Não pensem que eu acredito por muito tempo nas coisas que falo.
Já quis muito ser a dona da verdade.
Hoje só exercito desapego com os meus pensamentos.

Minha mãe tem umas coisas, umas falas, expressões tão delicadas. Refinamento até nas negativas e repreensões. Por exemplo, ela diz "Vou me fechar em copas". Ou "Este quarto está uma mixórdia".
Já meu pai tinha a língua dos brutos. Não que falasse palavrão, pelo contrário. Quando muito, escapulia um "Mierda" (o mesmo único "Mierda" que eu ouvia meu avô xingar). Mas de sua boca saíam frases duras, como "Uma cavalona desse tamanho, ainda não aprendeu?"
Como diria Shakespeare ou Guimarães Rosa:
"Verdade maior é que se está sempre num balanço."
De uma, veio meu gosto pela beleza embutida, sonora, que se arremessa.
Com o outro, aprendi que a gente também ama o feio.

Sou feita de ferro. Um ferro pobre, itabiritinho de nada. Esfarelo ao contato. Minha essência: sucessivas camadas de minerais terminados em ito, misturados a silícia.
(Sou impura.)
Descobri porque fui visitar uma área de mineração. Olhei para fora e vi dentro: escavações na montanha, minas a céu aberto, barragens de rejeitos. Senti fisgadas de dor e prazer. É bonito. Acredite, é lindo. Drummond disse: Minas é dentro e fundo. Minha amiga Juliana: parece a carne da terra.
Sim, parece. Carne da minha carne.

É uma grande emoção apreciar o trânsito dos passarinhos, aqui no baixo-céu. Bem verdade que, de uns tempos pra cá, os bem-te-vi ficaram escassos. Mas, em seu lugar, aparecem aves cada vez maiores.
Como o gaviãozinho que hoje pousou na antena. Quando saltou para o vôo e abriu as asas, lembrei de um sonho que eu tive e até fiz:
- Ah!
Meu amigo Boi comentou, na lata:
- Ele comeu o bem-te-vi!
Não acho que comeu. Mas se tiver comido, fazer o quê? É a vida!

Quarta-feira, dia de usar vermelho e encontrar as ruas inflamadas. O crime-sangue corre solto. Mas, que alívio, quem vem de lá é minha amiga doidinha, cabelos ao vento. Vontade de dizer:
- Há quanto tempo, você sumiu!
E ela provavelmente me responderia:
- Fase introspectiva...
Já me sinto tão íntima dessa moça, garanto que sinto sua falta. Também, ela me alimenta de simplicidades. Como a rosa rosa em sua blusa bege. Na mesma hora pensei em Clarice Lispector e na Imitação da Rosa. Não sei porque... mas lembrei... (Às vezes acho que o prosseguimento dos meus pensamentos é desviado para o Universo Sombra.)

Só vou dizer mais uma coisa: minha amiga doidinha é uma das pessoas mais íntegras que conheço.

sexta-feira, abril 12, 2002

Que eu já tive e não tenho mais:

51 Kg
67 Kg
medo do escuro
sangue pelo nariz
uma varinha de pescar
catapora, coqueluche e rubéola
um tomara-que-caia verde água, quando fiz 15 anos
15 anos
dor de garganta todo mês
a aorta fechada
que operar
duas bisavós vivas
uma namorada
caderno brochurão
aflição de unha arranhando quadro-negro
beliche em quarto apertado
todos os discos do Guilherme Arantes
cabelo loiro
cabelo preto
cabelo joãozinho
barracão de fundo
Nau, o gato
Lauro, o gato
Bonito, o gato
Churrasco, a gata
um periquito chamado Alberto
uma calça de lycra muito brega chamada Zequinha
uma caixinha de música que tocava Fascinação
alguma melancolia

É, tudo passa.

Da série "Crianças são insuperáveis"

Gigi para Olívia:
- Ah, é, sua mandona?!
Olívia para Gigi:
- É, sua mandinha!

Olívia para Tia Pat:
- Sua boba!
Tia Pat para Olívia:
- Eu sou boba e você é bobinha!
Olívia para Tia Pat:
- E você é uma velha carcuda!
Está lá na antena. Antes, pousou mais baixo e eu disse:
- Vai para a ponta da antena! Fica mais perto do céu!
Meu amigo Denis conjecturou:
- Talvez ele perca o ar.
Foi quando eu pensei alto que por isso é que eu sempre quis ser urubu, quero dizer, se eu fosse escolher uma ave para ser. Porque os urubus são os que voam mais alto, sem perder o ar e, o mais importante, a humildade. Você poderia me dizer:
- Credo! Mas eles comem carniça!
Justamente. São visionários e humildes, não têm frescuras à mesa. Na verdade, acho até que são nobres seres mitológicos, que levam os mortos a atravessarem O GRANDE CÉU. O tipo feio adorável.
Nisso, o bem-te-vi me ouviu (consegui grandes avanços na conversa telepática com os animais) e se convenceu a subir até o alto da antena. De onde, até o começo desta mensagem, nos observava (eu, você, a imensidão), sonhando com o dia em que for promovido a urubu.

Sonhei um sonho estranho. Que todas as minhas roupas estavam escondidas no mausoléu do meu pai, debaixo do caixão. Eu não tinha como resgatá-las, nem tanto por medo, mas porque tinha a certeza de que não agüentaria retirar o corpo sozinha. Estava dentro-fora da construção, e todas as pessoas que passavam pareciam nem me ver. Foi então que eu pensei: Vou ter que comprar tudo novo! Mas, ao mesmo tempo que me trouxe alegria, essa idéia me provocou culpa. Tinha a ver com consumismo. Tinha a ver com pão-durismo. E tinha a ver com desapego.
Aceito interpretações.
Não pensem que eu acredito por muito tempo nas coisas que falo.
Já quis muito ser a dona da verdade.
Hoje só exercito desapego com os meus pensamentos.
Minha mãe tem umas coisas, umas falas, expressões tão delicadas. Refinamento até nas negativas e repreensões. Por exemplo, ela diz "Vou me fechar em copas". Ou "Este quarto está uma mixórdia".
Já meu pai tinha a língua dos brutos. Não que falasse palavrão, pelo contrário. Quando muito, escapulia um "Mierda" (o mesmo único "Mierda" que eu ouvia meu avô xingar). Mas de sua boca saíam frases duras, como "Uma cavalona desse tamanho, ainda não aprendeu?"
Como diria Shakespeare ou Guimarães Rosa:
"Verdade maior é que se está sempre num balanço."
De uma, veio meu gosto pela beleza embutida, sonora, que se arremessa.
Com o outro, aprendi que a gente também ama o feio.

Algumas pessoas me dizem "Você acha tudo bonito".
Não concordo.
O que faço é procurar o bonito em tudo o que acho.
Sou feita de ferro. Um ferro pobre, itabiritinho de nada. Esfarelo ao contato. Minha essência: sucessivas camadas de minerais terminados em ito, misturados a silícia.
(Sou impura.)
Descobri porque fui visitar uma área de mineração. Olhei para fora e vi dentro: escavações na montanha, minas a céu aberto, barragens de rejeitos. Senti fisgadas de dor e prazer. É bonito. Acredite, é lindo. Drummond disse: Minas é dentro e fundo. Minha amiga Juliana: parece a carne da terra.
Sim, parece. Carne da minha carne.
Só quero dizer uma coisa:
A VIDA SÃO LAVRAS QUE VIRAM CAVAS.
Passei os últimos cinco minutos olhando o céu.
Quando voltei, não sabia se sentia minha pequenez ou minha imensidão.

Mas para cada avião que passou, joguei um desejo.


É uma grande emoção apreciar o trânsito dos passarinhos, aqui no baixo-céu. Bem verdade que, de uns tempos pra cá, os bem-te-vi ficaram escassos. Mas, em seu lugar, aparecem aves cada vez maiores.
Como o gaviãozinho que hoje pousou na antena. Quando saltou para o vôo e abriu as asas, lembrei de um sonho que eu tive e até fiz:
- Ah!
Meu amigo Boi comentou, na lata:
- Ele comeu o bem-te-vi!
Não acho que comeu. Mas se tiver comido, fazer o quê? É a vida!

Quarta-feira, dia de usar vermelho e encontrar as ruas inflamadas. O crime-sangue corre solto. Mas, que alívio, quem vem de lá é minha amiga doidinha, cabelos ao vento. Vontade de dizer:
- Há quanto tempo, você sumiu!
E ela provavelmente me responderia:
- Fase introspectiva...
Já me sinto tão íntima dessa moça, garanto que sinto sua falta. Também, ela me alimenta de simplicidades. Como a rosa rosa em sua blusa bege. Na mesma hora pensei em Clarice Lispector e na Imitação da Rosa. Não sei porque... mas lembrei... (Às vezes acho que o prosseguimento dos meus pensamentos é desviado para o Universo Sombra.)

Só vou dizer mais uma coisa: minha amiga doidinha é uma das pessoas mais íntegras que conheço.

Olívia, 2 anos, foi visitar Gabriela, 2 meses. Frases ditas durante a visita (entremeadas por uma risada excitada, quase nervosa):
- Hihi! Hihi! Dabizinha!
- Ó a mãozinha! Hihi! Ó o pezinho!
- Dabizinha bonitinha! Hihi!
- Piquininha! Hihi, hihi!
- Pode matá Dabizinha não, né?! Só matá a bruxa malvada... A Dabizinha não, né, mãe?!
A mãe quase teve um treco. A mãe da outra (e madrinha de Olívia) tranqüilizou:
- Criança é assim mesmo.
- É? E a Patrícia, por um acaso falava em te matar?
- Não, ela não falava. Mas um dia me deu água com pasta-jóia pra beber, falando que era suco de morango.

(Caros leitores, confesso: a Patrícia era eu.)

Tenho 31 anos, mas ainda não tomei jeito. Cada dia quero ser uma coisa diferente na vida:
- Atriz mambembe pobre
- Dona de boteco
- Cantora de música italiana
- Princesa do Líbano
- Rainha de bateria
- Esposa de um gênio
- Criadora de avestruz
- Missionária franciscana
- Acontecimento multimídia
- Garçom do Baltazar
Já quis até ser bibliotecária. Até freira. Agora não quero mais.
Ultimamente, ando pensando em ter um canteiro de obras. Ou cultivar hortaliças.
Ah, que cansaço! Todo dia me desfazer em outra. Lembro uma oração de Fernando Pessoa, que era ateu mas um dia escreveu assim:
"Senhor, livrai-me de mim."
Li que alguns teóricos quânticos defendem a teoria da duplicidade como essência fundamental do universo. Ou seja: com o big bang, criaram-se na verdade dois universos; um que é este que se vê e o outro exatamente igual mas oposto, e para sempre invisível: o UNIVERSO SOMBRA.
Os planetas-sombra, as estrelas-sombra e as pessoas-sombra são feitos de partículas-sombra (que nunca ninguém viu, mas são comprovadas cientificamente por causa de sua força gravitacional) e ocupam o mesmo espaço-tempo quadridimensional que nós.
Muito bem. Disso deduzi várias coisas:
1 - Fantasmas devem ser quando alguém morre neste universo e não morre no outro, ficando por aí uma sombra sem dono.
2 - Vampiros devem ser quando alguém morre no outro universo e não morre neste, ficando por aí um dono sem sombra.
3 - "Nada me completa mais do que o que me falta."
4 - A alma é sempre inteira.

A outra aflição que tenho é não poder exatamente o contrário. Ficar só vivendo, sem a consciência dos universos simultâneos que, ao me olhar, me dispersam.
Minha aflição é não poder ficar só olhando a vida, como ela é, bonita vista de fora. Um grande painel de recortes de cenas de momentos de personagens de pessoas de alma boa. (Todas as almas são boas.)
Olhando, olhando, as nuvens que viram formas que viram prédios que viram ruas que viram pombas que viram tudo (de cima as pombas têm uma visão muito boa.)
Como observadora, compreendo melhor. Como observadora, não me sinto ameaçada e então se revelam AS BELEZAS EXTRAORDINÁRIAS. Como a dor, a perda, o pratinho esmaltado da criança na creche. A solidão.
O escorpião e a barata

Estou no trânsito. Estou com sono. No céu está o sol. (Quase escuto um pianinho meio jazz, nessa hora.)
Do lado, mais à frente, pára um ônibus. Olho distraída, quando:
- Ah!
Por sua traseira, sobe uma barata gigante. A MEGA-BARATA. Não resisto ao comentário:
- Que absurda essa barata!
O taxista olha e também se posiciona:
- E coloridinha, né?!
Acima da barata, um escorpião de braço a braço e o texto: "O que ele está fazendo invadindo o seu ambiente? Caçando baratas. Ou quem sabe... você!"
Penso em como o meu é muitas vezes um mundo de ampliações, policromia, gerúndios e textos infames. Mas vamos lá. É só mais uma quinta-feira. E no céu está o sol.

segunda-feira, abril 08, 2002

Olho para a menina em preto e branco. Ela me intriga.
5 ou 6 anos, cabelos desgrenhados, sandálias ortopédicas. O vestido, curto demais e levantado pela barriga, mostra a calcinha. A postura, sempre a mesma - ombros para trás, joelhos fletidos. O queixo enterrado no peito não tira a força do olhar, que é direto. A mão segura firme a da irmã. Parece decidida. Parece não ter medo de nada.
Mas tem. Medo de soltar a outra mão e então lembrar que está sozinha no universo das coisas. Medo de não estar segurando mão nenhuma e ser tudo só uma ilusão - mão, tijolo, vida, câmera fotográfica. Medo de estar sendo observada todo o tempo por um Deus multiolhos, olho do pai, olho da mãe, lente da câmera, pessoas na rua - que ela não sabe quem são, mas tem certeza que sabem quem ela é.
A menina pensa em coisas como a vida um campo de provas. Jogo de um só jogador, que é ela. (Quase tenho certeza que ela vai sonhar com isso a vida toda, incerta de cumplicidades que mantenham sua confiança.) A menina sabe que está sozinha, mas não quer saber: será esse o seu segredo?
Olho de novo para fotografia. Sinto amor por essa menina. Amor e pena.

Essa menina sou eu.
Como quando era na infância e o lote vago do lado era um ninho de gatos. Eu sempre fui louca por gatos. Chamava "bichin, bichin", imitava "miu, miu", levava miolo de pão molhado no leite. Ficava namorando de longe, mas com O DESEJO.
- Queria ver com a minha mão!
Era só o adulto distrair e então acontecia. As palmas das mãos coçavam, os dedos não tinham sossego, até que uma pedra fosse escolhida e arremessada. Eu tinha boa pontaria. Em geral acertava a cabeça do filhote, que era rapidamente socorrido. Por mim, obviamente:
- Ah, coitadinho, vou cuidar de você.
Lavava o local do ferimento com água e sabão de coco, secava os pêlos no salão de beleza da Suzie. Passava água oxigenada, merthiolate, fazia curativo. E o pobre gatinho, doído de tanto amor.
É. Nunca entendi esse tipo de comportamento. Sei que tinha um nervoso, uma gastura, coração acelerado e dentes cerrados. Sei que foi de onde tirei que a crueldade e a inocência andam de braços dados.

Ave vira vôo
Vôo vira vento
Vento vira verde
Verde vira voz:
- Vai, vem.
A moça já é vermelha e ainda pinta o cabelo de vermelho e ainda veste um vestidinho vermelho calça sandalinha vermelha sai de casa com a blusinha vermelha dependurada no ombro, penso que para proteger do sol a cicatriz. Também vermelha. Certo que quinta-feira é dia de um anjo que gosta de vermelho - a moça leu na revista - e a moça ela mesma gosta muito de vermelho, mas isso já é O CHAMAMENTO DE MARTE. E em pé de guerra, desce a moça toc toc (a sandália faz barulho de tamanco). Vem um homem de expressão fria. Fria que digo é má. A moça não costuma fazer pré-julgamentos, mas o vermelho começa a queimar. É fogo. Frente a frente com o homem, a blusa escorrega do ombro para trás e com um rápido movimento de braço-mão ela a captura no ar. Viva! A moça segue adiante, contente e confiante. O homem, que ficou para trás, vê a cicatriz pelas costas e pensa: mulher boa de briga. Isso, a moça imagina. Porque ver, ela não viu.

Clarice disse "a galinha é o disfarce do ovo". Pois bem: talvez o ovo seja uma pista falsa da galinha. (Nada com as galinhas, nem ovos. Só estou em busca do mistério.) Para responder quem vem primeiro, primeiro tenho que saber onde começa, onde termina. E se não tiver nem começo nem fim, só a existência dilatada? Daí saímos do galinheiro e chegamos ao Deus, que - dizem - é eterno, onipresente e descontínuo (ora se disfarça de galinha, ora de ovo, ora de mim.). Deus, estando em todos os lugares, perverte ou amplia a matemática. Por exemplo, esta frase bonita: DUAS PARALELAS SÓ SE ENCONTRAM NO INFINITO. Sem Deus, o infinito é lá. Com Deus, é já.

Meu sincero agradecimento a João Pedro, o amigo de cinco anos que ontem à noite me deu de presente um tatu-bolinha tirado por ele mesmo da terra, o qual apelidamos Lucas Bruno Pedro. Presente inesperado e coincidente (esclareço que meu amigo João Pedro não lê Os desvarios de Patrícia), que muito me encheu de amor. Juntos, cuidamos de Lucas Bruno, providenciando um abrigo temporário - guardanapo + terra + folhinhas partidas + pastilhas Smint. Infelizmente, enquanto fui ao banheiro, o garçom recolheu aquela trouxinha de terra da mesa, de maneira que não cheguei a levar Lucas Bruno para casa, onde ganharia um lar fixo no vasinho de manjericão da Vandréia. Mas pude levar para casa o melhor - a lembrança do meu amigo João Pedro descobrindo:
- Ele faz cosquinha na mão da gente!
Hoje de manhã encontrei um pobre-diabo. Desses que mexe nos lixos e acorda bebendo os restos. Passou por mim na rua, carregando toda a raiva do mundo. Me olhou de cima em baixo e descarregou:
- E quebro também esses óculos, sua puta, sua cega! Óculos a essa hora da manhã!
De costas, ainda ouvi:
- Você tá morta, viu?! Você é uma assassinada!
Desci a ladeira com o coração leve. Suas palavras duras quebraram a redoma que me aprisionava. Estava cega. Estava morta. Agora sou livre de novo. (É a comprovação de que Deus também vem disfarçado de pobre-diabo.)
Apareci.
Sumi.

segunda-feira, março 04, 2002

Day by day.

quinta-feira, fevereiro 21, 2002

Sou uma fada-madrinha. Por isso devo escolher um presente para Gabriela, em seu primeiro mês de vida. Pensei muitas coisas:
- uma caixinha de música, para ela guardar as notas
- um vento que levanta saia
- peixes de água doce (+ um lago pra guardar)
- gaiola sem passarinho (+ todos os passarinhos no céu)
- quintal com pé descalço
- pedras preciosas (disfarçadas de cacos de vidro)
- um broche de joaninha que voa sozinho
Pensei, pensei, mas nada dava tamanho. Foi então que eu achei uma foto antiga. E escolhi.
O presente que te dou, Gabi, é um amor. Amor é sempre artigo de luxo, mas este (eu garanto) não tem igual. É um amor, assim, discretinho, desses que não se anuncia muito por aí. Mas resistente feito ele só! Já passou por brigas, ciúmes, diferenças. Já provou suco de pasta-jóia, chá de miolo de margarida, arroz com tatu-bolinha. Já sobreviveu a tapas, roupas iguais e namorados idem. Já enfrentou fantasmas. Um ladrão disfarçado de geladeira. A morte. O renascer. Pra você ver, este amor já até se separou e continua inseparável.
Estou falando de um amor king-size, que às vezes dormia amontoado na mesma cama. Entre os mesmos pais. E sonhando os mesmos sonhos. E um dos sonhos, Gabriela, era você. Para este amor que te dou, fiz uma poesia. É assim:
Era uma vez uma menininha só.
Então passou um ano e a menininha ganhou uma irmã.
E nunca mais ela foi uma menininha só.

quarta-feira, fevereiro 20, 2002

Alegria é levar o carnaval dentro do peito depois da quarta-feira de cinzas.
Atravessar chuva e quaresma como uma escola de samba, sem penitência nem sacrifício.
Comemoro porque um Deus inteiro já morreu pra que eu não tivesse sofrimento.
E, vivo de novo, Ele está sempre me convidando para dançar.
(Sou sua porta-bandeira.)

Gabriela está fazendo um mês de vida. A mãe me pediu que escrevesse alguma coisa. Mas, como posso, se já dei para ela toda a minha coleção de palavras? Procuro, procuro na caixa de miudezas. Até que, ufa, consigo encontrar duas:
tatu-bolinha e amor-perfeito.

sexta-feira, fevereiro 08, 2002

Gabriela de azul claro
ficou bonita como a frente fria.
Suspiros, suspiros
são feitos de açúcar,
doces e esfarelentos.

Às vezes, vêm com limão.

Na casa do Sérgio,
um saco de suspiros
acaba num minuto,

como tudo.
Uso lentes de contato invisíveis - acopladas aos olhos - que aumentam cerca de 99% a minha capacidade de foco.
Tenho uma parte substancial (7 cm) da aorta feita de dacron - uma prótese que mistura artéria de porco e plástico.
Conto com cerca de 10 obturações dentárias.
E levo um pino solto na cabeça.
Sou uma robô.

Quando as coisas não fazem sentido
é porque ainda precisam ser sentidas.

quarta-feira, fevereiro 06, 2002

Digo, é muito bom ter a companhia durante o vôo.
Mas se o coração não estiver leve,
é uma companhia que pesa.

Então, para voar, a gente se livra da companhia.
às vezes é sozinho mesmo que a gente voa.

quarta-feira, janeiro 30, 2002

daqui não posso te ver
não posso te ouvir
nem-te.

(vou dormir com a sua blusa de marginal europeu)
Às vezes Mercúrio faz de mim uma inconveniente.
Lá está o bem-te-vi na antena.
Do alto, vigia:
- a cidade e os homens;
- ou o céu e os anjos.
Enquanto me encara ou se ostenta mantém meu olhar.
Aquele bem-te-vi também sou eu.
Espero que ele parta para que eu possa vouar vouar.
Esta noite sonhei que estava no centro de um lugar de onde partiam caminhos que invariavelmente terminavam em círculos ou retornos. Minha função era escolher um e caminhar, dar a volta, chegar de novo ao centro, escolher outro, caminhar, voltar ao centro. Etc.
(Em algum momento chegaria à casa ensolarada guardada na memória.)
De vez em quando eu parava para consultar minha caixa postal, que não estava no computador, celular, nada assim. Era A TECNOLOGIA INSTALADA. Ou TELEPATIA. Vários mails de uma mesma pessoa fizeram com que eu não me sentisse sozinha. Mas eu não os li. Apenas via o nome na Caixa de Entrada - esta era a mensagem.
Anotei no meu caderninho de sonhos: Hoje sonhei com O MAGO e A RODA DA FORTUNA.

segunda-feira, janeiro 28, 2002

Conexões não deixam de ser considerações.
Tem gente que dorme com as galinhas. Hoje eu acordei com os passarinhos. Antes de sair andando pela casa, andei um tanto pela cama king-size, andei também pelas paredes. Depois, olhei para aquele pedaço da serra que é meu (da janela minha vista alcança), estava encoberto de cerração, silhuetas de árvores adivinho que orvalhadas. Meu coração foi para lá, na cabeça tocava Jonh Coltrane for Lovers, e por isso estou assim, ausente. Entendam: minha ausência começou antes do motivo, mas essas coisas são desse jeito mesmo.

Vou chamar este dia de segunda-feira da saudade.

Meus textos nascem de pequenos partos.
Doídos, confusos, intensos.
Quando nascem, falam por si de mim.
Mas quem me dera parir uma Gabriela,
indizível graça,
particular e muda.

sexta-feira, janeiro 25, 2002

Pasto, cerca, braquiária.
Vaca, garrote, carro-de-boi.
Latão, retireiro, caminhão de leite.
E - expressão mais bonita -
dia de curar o gado.
Saudade, vô.
Saudade, pai.
Por aqui o simples é só palavra.

Também gosto de borboletas. São pequenos seres frágeis que vivem muito pouco, mas com leveza extrema. Isto, depois de passar pelo peso extremo de ser uma lagarta. Então: as borboletas sempre me deram esperança.
Na minha casa antiga tinha uma árvore-receptáculo de casulos. Eu gostava de acompanhar o movimento. As lagartinhas pretas com listas amarelas tomavam os galhos, comiam as folhas. Depois, da noite para o dia, sumiam e, em seu lugar, aparecia a casca-gota-invólucro. De onde só saíam transformadas. Sábia natureza, mas implacável: quem se recusasse à metamorfose era duramente castigada. Virava um nada, ficava superficial casulo para sempre. Sei porque já abri alguns.
(Suspiro com olhos para Deus.) Penso que as lagartas deveriam ter direito a retroceder.

segunda-feira, janeiro 21, 2002

Gabriela nasceu. Três quilos, cento e cinco. Quarenta e nove centímetros. É bochechuda, cor-de-rosa e nada amarrotada. Tão miúda, já com a mão cheia de linhas, os dedos longos, as unhas bem-desenhadas. Tão miúda, já com cabelos. Mas ainda não tem direito: sobrancelhas e cílios.
Nas extremidades de Gabriela, quando faz frio fica meio roxo. Por qualquer coisa, avermelha como eu. E o umbigo ainda não é umbigo; por enquanto é um fio cortado.
Gabriela não chorou ao tomar banho. Gabriela quase não chora. Mas, se ameaça chorar, é só cantar que ela pára. Seus olhos ainda são daquele cinza-outro-mundo e me disseram que ela ainda não enxerga, mas ontem Gabriela me fitou, enquanto eu cantava pra ela. Por isso sei que ela gosta de música.
Gabriela nasceu. E todas as coisas saíram de ordem. Não sei mais escrever, não sei mais as coisas que sabia. Esqueci todos os livros, lugares por onde passei, técnicas e habilidades manuais. Hoje só sei ficar com ela, com a ponta do dedo fazendo carinhos suspensos, olhando, olhando, guardiã de um tesouro.

sexta-feira, janeiro 18, 2002

Hoje tomei chuva. Na hora não tinha sombrinha, nem capa, nem galochas. Tinha a rua à minha frente, chão e árvores molhados abrindo passagem. Uma pressa e uma emoção: hoje nasceria Gabriela.
Há muito tempo eu não tomava chuva. Digo, tomar chuva de verdade. Permitindo, aceitando, sem correr. Entregando-me a ela. E então, enquanto a água caía, pensei que chuva é uma coisa muito boa, muito generosa mesmo, e que pingos são pequenos carinhos. Também pensei que em menina eu sabia disso com mais força, tanto que esperava a chuva pra sair de casa. Eu já soube que a chuva era uma graça.
Não se faz pose na chuva. Não se explora um salto alto. Não se mantém a maquiagem, muito menos o penteado. Não tem nariz empinado que resista a uma calçada escorregadia. O vestido bonito murcha. Chuva gosta das palavras encharcar e ensopar. Borra, desmancha, lava, leva. É puro desapego, toda transparências e sinceridade. Na chuva o que fica bonito é a alma.
Foi assim, pensando nessas coisas, que vim.
Enquanto isso, Gabriela veio.
Minha madrinha morava no terceiro andar de um apartamento de esquina no Santo Antônio. Íamos sempre lá, mas, depois da chegada com entusiasmo, os "adultos" iam conversar e eu ficava com tédio. Cabeça vazia, oficina do demônio - já dizia meu pai. Um dia, sozinha no quarto dela, já cansada de brincar de maquiagem e "Vamos usar todas as bijouterias da Méia?", inventei uma nova brincadeira, que já sinalizava minha vocação para a redação. Escrevi vários bilhetes de "Socorro! Estou presa aqui no terceiro andar! Eles não me deixam sair!" e fui para a janela. Era um passante se aproximar e pimba, lá ia bilhete prédio abaixo. Foram várias reações. Alguns não entendiam nada, outros riam de cara, ao me ver lá em cima com cara-de-quem-quer-ver-o-que-vai-acontecer. Foi aí que se manifestou minha outra vocação. E passei a fazer caras tristes, muito tristes. Era uma pobre garotinha de uns 8 anos, prisioneira, pedindo ajuda. Até acho que chorei. E as pessoas olhavam confusas, não querendo acreditar. Até que alguém acreditou. De verdade. Acreditou tanto que subiu no apartamento da minha madrinha, pedindo explicações e ameaçando chamar a polícia. Minha madrinha teve que ir me buscar no quarto para desmentir a história. O que fiz com a cara mais limpa deste mundo. Porque, além de cruel, criança é descarada.

terça-feira, janeiro 15, 2002

Venho de uma cidade de doidos. Doidos oficiais, que fique bem claro. E públicos. Como o Marcelão, sempre com um saco nas costas, catando papel na praça e correndo atrás das crianças. Quem olhava não dizia que vinha de família rica. Mas foi ficando doidinho, doidinho, a família sem ter como segurar em casa. Virou patrimônio. Mas já morreu.
Como também já morreu a Tropeira, outra com-saco-nas-costas-correndo-atrás-de-criança. Dizia-se que, se pegasse, enfiava no saco. Esta não tinha posses, era da periferia. A periferia em São Vicente se chama CAVA ou RUA DO CAMPO.
Não sei exatamente onde morava a Tropeira, mas sei que era perto dos irmãos Déde, Lulu e João. Os três, doidos. Mas doidos alegres, risonhos. Déde não podia ver moça bonita que ficava envergonhado, rindo de nervoso. Escondia o rosto atrás da mão, enquanto Lulu cantava "Meu docinho de coco!". João era mudo. Uma maldade, o que fizeram com eles. Um dia, os covardes da cidade levaram os três pra um rancho e surraram até tirar sangue. Dois morreram neste episódio. Um ficou pra contar história, mas como era o João nunca contou coisa nenhuma. Morreu uns dois anos depois, mudo e triste.
Outro, cheio de delicadezas, que apanhou dos covardes foi o Margoso. Meio anão, com uns braços enormes, adorava dançar. Nos bailes, era o encarregado de recolher os cascos no salão. Sempre bebia o restinho das cervejas e, no final da noite, dava um show. Um Fred Astaire que só rodava, mas precisava ver com que entrega!
Aliás, isso é bem dos meus doidos: a entrega. Geraldinho, em intermináveis e apaixonadas discussões com os postes da cidade: "Pensas que me enganas?" Tindi, que há uns trinta anos desce a rua cantando emocionado "Na Bahia tem, tem, tem, tem..." E todos os outros, esquecidos ou desconhecidos (agora há uma nova geração de doidos na cidade, que não conheço, que pena, não conheço).
Pois bem, escrevi este texto para fazer uma homenagem a eles. Porque lhes devo muito. Graças a eles, existe hoje a desvairada.


Preciso ir ao dentista. Mas antes, preciso perder o medo de dentista. Parece ridículo, mas não é nada perto de um episódio acontecido com o único dentista do qual não fugi: meu tio-avô Severino. Faz um ano, ele morreu subitamente (mas nem tanto, porque já estava idoso). Eis que no enterro fui parar ao lado de Teresinha, sua assistente por quase 30 anos. Teresinha me olhou emocionada, meio confortando, meio querendo conforto. Ao que eu:
- Ai, ai... Ficamos sem o tio Severino... Mas sabe o pior, Teresinha? Agora, quem vai cuidar dos meus dentes?
Minha família morre de rir dessa história. Dizem que foi a pérola da minha fase Tico-Teco. Mas representava muito: eu estava falando do insubstituível.


O dia começou com uma barata morrendo de causa natural debaixo da recamier. Baratas são meu medo ancestral. A simples idéia do que a distinta esteve fazendo durante a noite poderia destruir meu dia. Minha cama é baixa. E ela, uma barata muito alta. Tipo, de salto alto. Mas desta vez, quando a percebi, deitada de costas, solitária, moribunda, exposta e vulnerável, não tive medo nem nojo. Apresentava ainda pequenas convulsões, perninhas esticando e contraindo. Pude me aproximar e olhar para ela de cima em baixo. E, pela primeira vez na vida, admiti que a barata e eu temos alguma coisa em comum (além, é claro, de Clarice Lispector).
Há quem diga que sou Madre Teresa de Calcutá, mas não vamos assim tão longe. Não quis salvar a barata, nem desejei que ela se salvasse sozinha. Pelo contrário, dei graças a Deus por encontrá-la já nas últimas. E também não vi na barata a mesma essência que a minha, nem a considerei o grande milagre da vida. Minha relação com a barata continuou sendo, por assim dizer, bem rasteira.
Mas em comum temos uma rotina. Acordar com os mesmos tormentos. Acordar sendo um tormento.
O que me faz pensar que joguei a barata na privada e Vandréia deu a descarga. Mas ela volta.

quarta-feira, janeiro 09, 2002

Oh, senhor,
Obrigada por mais um dia.
Que ele seja indolor
E me traga muita alegria.
Entrei em uma loja de CDs a nove e noventa e nove. Como raramente passo incólume por uma oferta, adquiri um Roberto Silva em gravações originais remasterizadas. Nunca tinha ouvido falar em Roberto Silva, mas o CD tinha o selo Raízes do Samba, e o cantor tinha a cara do Nélson Gonçalves. De quem, a propósito, meu pai gostava muito.
Fato é que foi uma das mais gratas surpresas musicais. Só música bonita, o legítimo samba, e um vozeirão Nélson Gonçalves a serviço do suíngue.
O que me fez lembrar daquela minha amiga doidinha que vaga pelas ruas da Serra. Ela é pura nobreza (agora está com um penteado black-power) a serviço da simplicidade. Caminha gingado, tem musicalidade na sua passagem, passo-passo-passo, escuta?! Primeiro, no tempo, reparei sua existência. Depois, sorrisos de mútuo reconhecimento. E, dia desses, o ápice: na fila da padaria, ela entrou na minha frente, pediu um cigarro e sentenciou para o caixa: Ela paga. Eu?! Paguei, né... Acontece que essa nega já mora no meu barraco... Ah, Roberto Silva, todo dia é um samba novo.

segunda-feira, janeiro 07, 2002

Compasso porque compertenço.
Do corgo ao corguinho,
dentr´onde, de-pressas,
vou da desalegria ao desdolorir-se,
luiz-e-silva.
Mas a embirrância dalalalando: desadorar-se.

segunda-feira, dezembro 03, 2001

Da minha janela
cotidio o dia.
E vou cotidiano histórias,
cotidiano amores,
cotidiano estrelas.
(Cotidiar é um verbo novo. Caso queira, substitua por "costurar sem agulhas", ou "descortinar sem cortinas".)
Cantada para um bem-te-vi

Meu coração,
não sei por quê,
bate feliz,
quando te vê.
E os meus olhos ficam sorrindo
e pelas ruas vou te seguindo
mas, mesmo assim,
foges de mim.

Experimente seguir um bem-te-vi, com os olhos.
Experimente fazer isso ao som de Pixinguinha (Pi-pi-pi, Pi-pi-pi, Pi-pi-pi).
Experimente, numa tarde de sol radiante.

(Isso é correr atrás da inspiração.)