Venho de uma cidade de doidos. Doidos oficiais, que fique bem claro. E públicos. Como o Marcelão, sempre com um saco nas costas, catando papel na praça e correndo atrás das crianças. Quem olhava não dizia que vinha de família rica. Mas foi ficando doidinho, doidinho, a família sem ter como segurar em casa. Virou patrimônio. Mas já morreu.
Como também já morreu a Tropeira, outra com-saco-nas-costas-correndo-atrás-de-criança. Dizia-se que, se pegasse, enfiava no saco. Esta não tinha posses, era da periferia. A periferia em São Vicente se chama CAVA ou RUA DO CAMPO.
Não sei exatamente onde morava a Tropeira, mas sei que era perto dos irmãos Déde, Lulu e João. Os três, doidos. Mas doidos alegres, risonhos. Déde não podia ver moça bonita que ficava envergonhado, rindo de nervoso. Escondia o rosto atrás da mão, enquanto Lulu cantava "Meu docinho de coco!". João era mudo. Uma maldade, o que fizeram com eles. Um dia, os covardes da cidade levaram os três pra um rancho e surraram até tirar sangue. Dois morreram neste episódio. Um ficou pra contar história, mas como era o João nunca contou coisa nenhuma. Morreu uns dois anos depois, mudo e triste.
Outro, cheio de delicadezas, que apanhou dos covardes foi o Margoso. Meio anão, com uns braços enormes, adorava dançar. Nos bailes, era o encarregado de recolher os cascos no salão. Sempre bebia o restinho das cervejas e, no final da noite, dava um show. Um Fred Astaire que só rodava, mas precisava ver com que entrega!
Aliás, isso é bem dos meus doidos: a entrega. Geraldinho, em intermináveis e apaixonadas discussões com os postes da cidade: "Pensas que me enganas?" Tindi, que há uns trinta anos desce a rua cantando emocionado "Na Bahia tem, tem, tem, tem..." E todos os outros, esquecidos ou desconhecidos (agora há uma nova geração de doidos na cidade, que não conheço, que pena, não conheço).
Pois bem, escrevi este texto para fazer uma homenagem a eles. Porque lhes devo muito. Graças a eles, existe hoje a desvairada.