quarta-feira, janeiro 30, 2002

daqui não posso te ver
não posso te ouvir
nem-te.

(vou dormir com a sua blusa de marginal europeu)
Às vezes Mercúrio faz de mim uma inconveniente.
Lá está o bem-te-vi na antena.
Do alto, vigia:
- a cidade e os homens;
- ou o céu e os anjos.
Enquanto me encara ou se ostenta mantém meu olhar.
Aquele bem-te-vi também sou eu.
Espero que ele parta para que eu possa vouar vouar.
Esta noite sonhei que estava no centro de um lugar de onde partiam caminhos que invariavelmente terminavam em círculos ou retornos. Minha função era escolher um e caminhar, dar a volta, chegar de novo ao centro, escolher outro, caminhar, voltar ao centro. Etc.
(Em algum momento chegaria à casa ensolarada guardada na memória.)
De vez em quando eu parava para consultar minha caixa postal, que não estava no computador, celular, nada assim. Era A TECNOLOGIA INSTALADA. Ou TELEPATIA. Vários mails de uma mesma pessoa fizeram com que eu não me sentisse sozinha. Mas eu não os li. Apenas via o nome na Caixa de Entrada - esta era a mensagem.
Anotei no meu caderninho de sonhos: Hoje sonhei com O MAGO e A RODA DA FORTUNA.

segunda-feira, janeiro 28, 2002

Conexões não deixam de ser considerações.
Tem gente que dorme com as galinhas. Hoje eu acordei com os passarinhos. Antes de sair andando pela casa, andei um tanto pela cama king-size, andei também pelas paredes. Depois, olhei para aquele pedaço da serra que é meu (da janela minha vista alcança), estava encoberto de cerração, silhuetas de árvores adivinho que orvalhadas. Meu coração foi para lá, na cabeça tocava Jonh Coltrane for Lovers, e por isso estou assim, ausente. Entendam: minha ausência começou antes do motivo, mas essas coisas são desse jeito mesmo.

Vou chamar este dia de segunda-feira da saudade.

Meus textos nascem de pequenos partos.
Doídos, confusos, intensos.
Quando nascem, falam por si de mim.
Mas quem me dera parir uma Gabriela,
indizível graça,
particular e muda.

sexta-feira, janeiro 25, 2002

Pasto, cerca, braquiária.
Vaca, garrote, carro-de-boi.
Latão, retireiro, caminhão de leite.
E - expressão mais bonita -
dia de curar o gado.
Saudade, vô.
Saudade, pai.
Por aqui o simples é só palavra.

Também gosto de borboletas. São pequenos seres frágeis que vivem muito pouco, mas com leveza extrema. Isto, depois de passar pelo peso extremo de ser uma lagarta. Então: as borboletas sempre me deram esperança.
Na minha casa antiga tinha uma árvore-receptáculo de casulos. Eu gostava de acompanhar o movimento. As lagartinhas pretas com listas amarelas tomavam os galhos, comiam as folhas. Depois, da noite para o dia, sumiam e, em seu lugar, aparecia a casca-gota-invólucro. De onde só saíam transformadas. Sábia natureza, mas implacável: quem se recusasse à metamorfose era duramente castigada. Virava um nada, ficava superficial casulo para sempre. Sei porque já abri alguns.
(Suspiro com olhos para Deus.) Penso que as lagartas deveriam ter direito a retroceder.

segunda-feira, janeiro 21, 2002

Gabriela nasceu. Três quilos, cento e cinco. Quarenta e nove centímetros. É bochechuda, cor-de-rosa e nada amarrotada. Tão miúda, já com a mão cheia de linhas, os dedos longos, as unhas bem-desenhadas. Tão miúda, já com cabelos. Mas ainda não tem direito: sobrancelhas e cílios.
Nas extremidades de Gabriela, quando faz frio fica meio roxo. Por qualquer coisa, avermelha como eu. E o umbigo ainda não é umbigo; por enquanto é um fio cortado.
Gabriela não chorou ao tomar banho. Gabriela quase não chora. Mas, se ameaça chorar, é só cantar que ela pára. Seus olhos ainda são daquele cinza-outro-mundo e me disseram que ela ainda não enxerga, mas ontem Gabriela me fitou, enquanto eu cantava pra ela. Por isso sei que ela gosta de música.
Gabriela nasceu. E todas as coisas saíram de ordem. Não sei mais escrever, não sei mais as coisas que sabia. Esqueci todos os livros, lugares por onde passei, técnicas e habilidades manuais. Hoje só sei ficar com ela, com a ponta do dedo fazendo carinhos suspensos, olhando, olhando, guardiã de um tesouro.

sexta-feira, janeiro 18, 2002

Hoje tomei chuva. Na hora não tinha sombrinha, nem capa, nem galochas. Tinha a rua à minha frente, chão e árvores molhados abrindo passagem. Uma pressa e uma emoção: hoje nasceria Gabriela.
Há muito tempo eu não tomava chuva. Digo, tomar chuva de verdade. Permitindo, aceitando, sem correr. Entregando-me a ela. E então, enquanto a água caía, pensei que chuva é uma coisa muito boa, muito generosa mesmo, e que pingos são pequenos carinhos. Também pensei que em menina eu sabia disso com mais força, tanto que esperava a chuva pra sair de casa. Eu já soube que a chuva era uma graça.
Não se faz pose na chuva. Não se explora um salto alto. Não se mantém a maquiagem, muito menos o penteado. Não tem nariz empinado que resista a uma calçada escorregadia. O vestido bonito murcha. Chuva gosta das palavras encharcar e ensopar. Borra, desmancha, lava, leva. É puro desapego, toda transparências e sinceridade. Na chuva o que fica bonito é a alma.
Foi assim, pensando nessas coisas, que vim.
Enquanto isso, Gabriela veio.
Minha madrinha morava no terceiro andar de um apartamento de esquina no Santo Antônio. Íamos sempre lá, mas, depois da chegada com entusiasmo, os "adultos" iam conversar e eu ficava com tédio. Cabeça vazia, oficina do demônio - já dizia meu pai. Um dia, sozinha no quarto dela, já cansada de brincar de maquiagem e "Vamos usar todas as bijouterias da Méia?", inventei uma nova brincadeira, que já sinalizava minha vocação para a redação. Escrevi vários bilhetes de "Socorro! Estou presa aqui no terceiro andar! Eles não me deixam sair!" e fui para a janela. Era um passante se aproximar e pimba, lá ia bilhete prédio abaixo. Foram várias reações. Alguns não entendiam nada, outros riam de cara, ao me ver lá em cima com cara-de-quem-quer-ver-o-que-vai-acontecer. Foi aí que se manifestou minha outra vocação. E passei a fazer caras tristes, muito tristes. Era uma pobre garotinha de uns 8 anos, prisioneira, pedindo ajuda. Até acho que chorei. E as pessoas olhavam confusas, não querendo acreditar. Até que alguém acreditou. De verdade. Acreditou tanto que subiu no apartamento da minha madrinha, pedindo explicações e ameaçando chamar a polícia. Minha madrinha teve que ir me buscar no quarto para desmentir a história. O que fiz com a cara mais limpa deste mundo. Porque, além de cruel, criança é descarada.

terça-feira, janeiro 15, 2002

Venho de uma cidade de doidos. Doidos oficiais, que fique bem claro. E públicos. Como o Marcelão, sempre com um saco nas costas, catando papel na praça e correndo atrás das crianças. Quem olhava não dizia que vinha de família rica. Mas foi ficando doidinho, doidinho, a família sem ter como segurar em casa. Virou patrimônio. Mas já morreu.
Como também já morreu a Tropeira, outra com-saco-nas-costas-correndo-atrás-de-criança. Dizia-se que, se pegasse, enfiava no saco. Esta não tinha posses, era da periferia. A periferia em São Vicente se chama CAVA ou RUA DO CAMPO.
Não sei exatamente onde morava a Tropeira, mas sei que era perto dos irmãos Déde, Lulu e João. Os três, doidos. Mas doidos alegres, risonhos. Déde não podia ver moça bonita que ficava envergonhado, rindo de nervoso. Escondia o rosto atrás da mão, enquanto Lulu cantava "Meu docinho de coco!". João era mudo. Uma maldade, o que fizeram com eles. Um dia, os covardes da cidade levaram os três pra um rancho e surraram até tirar sangue. Dois morreram neste episódio. Um ficou pra contar história, mas como era o João nunca contou coisa nenhuma. Morreu uns dois anos depois, mudo e triste.
Outro, cheio de delicadezas, que apanhou dos covardes foi o Margoso. Meio anão, com uns braços enormes, adorava dançar. Nos bailes, era o encarregado de recolher os cascos no salão. Sempre bebia o restinho das cervejas e, no final da noite, dava um show. Um Fred Astaire que só rodava, mas precisava ver com que entrega!
Aliás, isso é bem dos meus doidos: a entrega. Geraldinho, em intermináveis e apaixonadas discussões com os postes da cidade: "Pensas que me enganas?" Tindi, que há uns trinta anos desce a rua cantando emocionado "Na Bahia tem, tem, tem, tem..." E todos os outros, esquecidos ou desconhecidos (agora há uma nova geração de doidos na cidade, que não conheço, que pena, não conheço).
Pois bem, escrevi este texto para fazer uma homenagem a eles. Porque lhes devo muito. Graças a eles, existe hoje a desvairada.


Preciso ir ao dentista. Mas antes, preciso perder o medo de dentista. Parece ridículo, mas não é nada perto de um episódio acontecido com o único dentista do qual não fugi: meu tio-avô Severino. Faz um ano, ele morreu subitamente (mas nem tanto, porque já estava idoso). Eis que no enterro fui parar ao lado de Teresinha, sua assistente por quase 30 anos. Teresinha me olhou emocionada, meio confortando, meio querendo conforto. Ao que eu:
- Ai, ai... Ficamos sem o tio Severino... Mas sabe o pior, Teresinha? Agora, quem vai cuidar dos meus dentes?
Minha família morre de rir dessa história. Dizem que foi a pérola da minha fase Tico-Teco. Mas representava muito: eu estava falando do insubstituível.


O dia começou com uma barata morrendo de causa natural debaixo da recamier. Baratas são meu medo ancestral. A simples idéia do que a distinta esteve fazendo durante a noite poderia destruir meu dia. Minha cama é baixa. E ela, uma barata muito alta. Tipo, de salto alto. Mas desta vez, quando a percebi, deitada de costas, solitária, moribunda, exposta e vulnerável, não tive medo nem nojo. Apresentava ainda pequenas convulsões, perninhas esticando e contraindo. Pude me aproximar e olhar para ela de cima em baixo. E, pela primeira vez na vida, admiti que a barata e eu temos alguma coisa em comum (além, é claro, de Clarice Lispector).
Há quem diga que sou Madre Teresa de Calcutá, mas não vamos assim tão longe. Não quis salvar a barata, nem desejei que ela se salvasse sozinha. Pelo contrário, dei graças a Deus por encontrá-la já nas últimas. E também não vi na barata a mesma essência que a minha, nem a considerei o grande milagre da vida. Minha relação com a barata continuou sendo, por assim dizer, bem rasteira.
Mas em comum temos uma rotina. Acordar com os mesmos tormentos. Acordar sendo um tormento.
O que me faz pensar que joguei a barata na privada e Vandréia deu a descarga. Mas ela volta.

quarta-feira, janeiro 09, 2002

Oh, senhor,
Obrigada por mais um dia.
Que ele seja indolor
E me traga muita alegria.
Entrei em uma loja de CDs a nove e noventa e nove. Como raramente passo incólume por uma oferta, adquiri um Roberto Silva em gravações originais remasterizadas. Nunca tinha ouvido falar em Roberto Silva, mas o CD tinha o selo Raízes do Samba, e o cantor tinha a cara do Nélson Gonçalves. De quem, a propósito, meu pai gostava muito.
Fato é que foi uma das mais gratas surpresas musicais. Só música bonita, o legítimo samba, e um vozeirão Nélson Gonçalves a serviço do suíngue.
O que me fez lembrar daquela minha amiga doidinha que vaga pelas ruas da Serra. Ela é pura nobreza (agora está com um penteado black-power) a serviço da simplicidade. Caminha gingado, tem musicalidade na sua passagem, passo-passo-passo, escuta?! Primeiro, no tempo, reparei sua existência. Depois, sorrisos de mútuo reconhecimento. E, dia desses, o ápice: na fila da padaria, ela entrou na minha frente, pediu um cigarro e sentenciou para o caixa: Ela paga. Eu?! Paguei, né... Acontece que essa nega já mora no meu barraco... Ah, Roberto Silva, todo dia é um samba novo.

segunda-feira, janeiro 07, 2002

Compasso porque compertenço.
Do corgo ao corguinho,
dentr´onde, de-pressas,
vou da desalegria ao desdolorir-se,
luiz-e-silva.
Mas a embirrância dalalalando: desadorar-se.