quinta-feira, fevereiro 21, 2002

Sou uma fada-madrinha. Por isso devo escolher um presente para Gabriela, em seu primeiro mês de vida. Pensei muitas coisas:
- uma caixinha de música, para ela guardar as notas
- um vento que levanta saia
- peixes de água doce (+ um lago pra guardar)
- gaiola sem passarinho (+ todos os passarinhos no céu)
- quintal com pé descalço
- pedras preciosas (disfarçadas de cacos de vidro)
- um broche de joaninha que voa sozinho
Pensei, pensei, mas nada dava tamanho. Foi então que eu achei uma foto antiga. E escolhi.
O presente que te dou, Gabi, é um amor. Amor é sempre artigo de luxo, mas este (eu garanto) não tem igual. É um amor, assim, discretinho, desses que não se anuncia muito por aí. Mas resistente feito ele só! Já passou por brigas, ciúmes, diferenças. Já provou suco de pasta-jóia, chá de miolo de margarida, arroz com tatu-bolinha. Já sobreviveu a tapas, roupas iguais e namorados idem. Já enfrentou fantasmas. Um ladrão disfarçado de geladeira. A morte. O renascer. Pra você ver, este amor já até se separou e continua inseparável.
Estou falando de um amor king-size, que às vezes dormia amontoado na mesma cama. Entre os mesmos pais. E sonhando os mesmos sonhos. E um dos sonhos, Gabriela, era você. Para este amor que te dou, fiz uma poesia. É assim:
Era uma vez uma menininha só.
Então passou um ano e a menininha ganhou uma irmã.
E nunca mais ela foi uma menininha só.

quarta-feira, fevereiro 20, 2002

Alegria é levar o carnaval dentro do peito depois da quarta-feira de cinzas.
Atravessar chuva e quaresma como uma escola de samba, sem penitência nem sacrifício.
Comemoro porque um Deus inteiro já morreu pra que eu não tivesse sofrimento.
E, vivo de novo, Ele está sempre me convidando para dançar.
(Sou sua porta-bandeira.)

Gabriela está fazendo um mês de vida. A mãe me pediu que escrevesse alguma coisa. Mas, como posso, se já dei para ela toda a minha coleção de palavras? Procuro, procuro na caixa de miudezas. Até que, ufa, consigo encontrar duas:
tatu-bolinha e amor-perfeito.

sexta-feira, fevereiro 08, 2002

Gabriela de azul claro
ficou bonita como a frente fria.
Suspiros, suspiros
são feitos de açúcar,
doces e esfarelentos.

Às vezes, vêm com limão.

Na casa do Sérgio,
um saco de suspiros
acaba num minuto,

como tudo.
Uso lentes de contato invisíveis - acopladas aos olhos - que aumentam cerca de 99% a minha capacidade de foco.
Tenho uma parte substancial (7 cm) da aorta feita de dacron - uma prótese que mistura artéria de porco e plástico.
Conto com cerca de 10 obturações dentárias.
E levo um pino solto na cabeça.
Sou uma robô.

Quando as coisas não fazem sentido
é porque ainda precisam ser sentidas.

quarta-feira, fevereiro 06, 2002

Digo, é muito bom ter a companhia durante o vôo.
Mas se o coração não estiver leve,
é uma companhia que pesa.

Então, para voar, a gente se livra da companhia.
às vezes é sozinho mesmo que a gente voa.