terça-feira, abril 23, 2002

Não pensem que eu acredito por muito tempo nas coisas que falo.
Já quis muito ser a dona da verdade.
Hoje só exercito desapego com os meus pensamentos.

Minha mãe tem umas coisas, umas falas, expressões tão delicadas. Refinamento até nas negativas e repreensões. Por exemplo, ela diz "Vou me fechar em copas". Ou "Este quarto está uma mixórdia".
Já meu pai tinha a língua dos brutos. Não que falasse palavrão, pelo contrário. Quando muito, escapulia um "Mierda" (o mesmo único "Mierda" que eu ouvia meu avô xingar). Mas de sua boca saíam frases duras, como "Uma cavalona desse tamanho, ainda não aprendeu?"
Como diria Shakespeare ou Guimarães Rosa:
"Verdade maior é que se está sempre num balanço."
De uma, veio meu gosto pela beleza embutida, sonora, que se arremessa.
Com o outro, aprendi que a gente também ama o feio.

Sou feita de ferro. Um ferro pobre, itabiritinho de nada. Esfarelo ao contato. Minha essência: sucessivas camadas de minerais terminados em ito, misturados a silícia.
(Sou impura.)
Descobri porque fui visitar uma área de mineração. Olhei para fora e vi dentro: escavações na montanha, minas a céu aberto, barragens de rejeitos. Senti fisgadas de dor e prazer. É bonito. Acredite, é lindo. Drummond disse: Minas é dentro e fundo. Minha amiga Juliana: parece a carne da terra.
Sim, parece. Carne da minha carne.

É uma grande emoção apreciar o trânsito dos passarinhos, aqui no baixo-céu. Bem verdade que, de uns tempos pra cá, os bem-te-vi ficaram escassos. Mas, em seu lugar, aparecem aves cada vez maiores.
Como o gaviãozinho que hoje pousou na antena. Quando saltou para o vôo e abriu as asas, lembrei de um sonho que eu tive e até fiz:
- Ah!
Meu amigo Boi comentou, na lata:
- Ele comeu o bem-te-vi!
Não acho que comeu. Mas se tiver comido, fazer o quê? É a vida!

Quarta-feira, dia de usar vermelho e encontrar as ruas inflamadas. O crime-sangue corre solto. Mas, que alívio, quem vem de lá é minha amiga doidinha, cabelos ao vento. Vontade de dizer:
- Há quanto tempo, você sumiu!
E ela provavelmente me responderia:
- Fase introspectiva...
Já me sinto tão íntima dessa moça, garanto que sinto sua falta. Também, ela me alimenta de simplicidades. Como a rosa rosa em sua blusa bege. Na mesma hora pensei em Clarice Lispector e na Imitação da Rosa. Não sei porque... mas lembrei... (Às vezes acho que o prosseguimento dos meus pensamentos é desviado para o Universo Sombra.)

Só vou dizer mais uma coisa: minha amiga doidinha é uma das pessoas mais íntegras que conheço.

sexta-feira, abril 12, 2002

Que eu já tive e não tenho mais:

51 Kg
67 Kg
medo do escuro
sangue pelo nariz
uma varinha de pescar
catapora, coqueluche e rubéola
um tomara-que-caia verde água, quando fiz 15 anos
15 anos
dor de garganta todo mês
a aorta fechada
que operar
duas bisavós vivas
uma namorada
caderno brochurão
aflição de unha arranhando quadro-negro
beliche em quarto apertado
todos os discos do Guilherme Arantes
cabelo loiro
cabelo preto
cabelo joãozinho
barracão de fundo
Nau, o gato
Lauro, o gato
Bonito, o gato
Churrasco, a gata
um periquito chamado Alberto
uma calça de lycra muito brega chamada Zequinha
uma caixinha de música que tocava Fascinação
alguma melancolia

É, tudo passa.

Da série "Crianças são insuperáveis"

Gigi para Olívia:
- Ah, é, sua mandona?!
Olívia para Gigi:
- É, sua mandinha!

Olívia para Tia Pat:
- Sua boba!
Tia Pat para Olívia:
- Eu sou boba e você é bobinha!
Olívia para Tia Pat:
- E você é uma velha carcuda!
Está lá na antena. Antes, pousou mais baixo e eu disse:
- Vai para a ponta da antena! Fica mais perto do céu!
Meu amigo Denis conjecturou:
- Talvez ele perca o ar.
Foi quando eu pensei alto que por isso é que eu sempre quis ser urubu, quero dizer, se eu fosse escolher uma ave para ser. Porque os urubus são os que voam mais alto, sem perder o ar e, o mais importante, a humildade. Você poderia me dizer:
- Credo! Mas eles comem carniça!
Justamente. São visionários e humildes, não têm frescuras à mesa. Na verdade, acho até que são nobres seres mitológicos, que levam os mortos a atravessarem O GRANDE CÉU. O tipo feio adorável.
Nisso, o bem-te-vi me ouviu (consegui grandes avanços na conversa telepática com os animais) e se convenceu a subir até o alto da antena. De onde, até o começo desta mensagem, nos observava (eu, você, a imensidão), sonhando com o dia em que for promovido a urubu.

Sonhei um sonho estranho. Que todas as minhas roupas estavam escondidas no mausoléu do meu pai, debaixo do caixão. Eu não tinha como resgatá-las, nem tanto por medo, mas porque tinha a certeza de que não agüentaria retirar o corpo sozinha. Estava dentro-fora da construção, e todas as pessoas que passavam pareciam nem me ver. Foi então que eu pensei: Vou ter que comprar tudo novo! Mas, ao mesmo tempo que me trouxe alegria, essa idéia me provocou culpa. Tinha a ver com consumismo. Tinha a ver com pão-durismo. E tinha a ver com desapego.
Aceito interpretações.
Não pensem que eu acredito por muito tempo nas coisas que falo.
Já quis muito ser a dona da verdade.
Hoje só exercito desapego com os meus pensamentos.
Minha mãe tem umas coisas, umas falas, expressões tão delicadas. Refinamento até nas negativas e repreensões. Por exemplo, ela diz "Vou me fechar em copas". Ou "Este quarto está uma mixórdia".
Já meu pai tinha a língua dos brutos. Não que falasse palavrão, pelo contrário. Quando muito, escapulia um "Mierda" (o mesmo único "Mierda" que eu ouvia meu avô xingar). Mas de sua boca saíam frases duras, como "Uma cavalona desse tamanho, ainda não aprendeu?"
Como diria Shakespeare ou Guimarães Rosa:
"Verdade maior é que se está sempre num balanço."
De uma, veio meu gosto pela beleza embutida, sonora, que se arremessa.
Com o outro, aprendi que a gente também ama o feio.

Algumas pessoas me dizem "Você acha tudo bonito".
Não concordo.
O que faço é procurar o bonito em tudo o que acho.
Sou feita de ferro. Um ferro pobre, itabiritinho de nada. Esfarelo ao contato. Minha essência: sucessivas camadas de minerais terminados em ito, misturados a silícia.
(Sou impura.)
Descobri porque fui visitar uma área de mineração. Olhei para fora e vi dentro: escavações na montanha, minas a céu aberto, barragens de rejeitos. Senti fisgadas de dor e prazer. É bonito. Acredite, é lindo. Drummond disse: Minas é dentro e fundo. Minha amiga Juliana: parece a carne da terra.
Sim, parece. Carne da minha carne.
Só quero dizer uma coisa:
A VIDA SÃO LAVRAS QUE VIRAM CAVAS.
Passei os últimos cinco minutos olhando o céu.
Quando voltei, não sabia se sentia minha pequenez ou minha imensidão.

Mas para cada avião que passou, joguei um desejo.


É uma grande emoção apreciar o trânsito dos passarinhos, aqui no baixo-céu. Bem verdade que, de uns tempos pra cá, os bem-te-vi ficaram escassos. Mas, em seu lugar, aparecem aves cada vez maiores.
Como o gaviãozinho que hoje pousou na antena. Quando saltou para o vôo e abriu as asas, lembrei de um sonho que eu tive e até fiz:
- Ah!
Meu amigo Boi comentou, na lata:
- Ele comeu o bem-te-vi!
Não acho que comeu. Mas se tiver comido, fazer o quê? É a vida!

Quarta-feira, dia de usar vermelho e encontrar as ruas inflamadas. O crime-sangue corre solto. Mas, que alívio, quem vem de lá é minha amiga doidinha, cabelos ao vento. Vontade de dizer:
- Há quanto tempo, você sumiu!
E ela provavelmente me responderia:
- Fase introspectiva...
Já me sinto tão íntima dessa moça, garanto que sinto sua falta. Também, ela me alimenta de simplicidades. Como a rosa rosa em sua blusa bege. Na mesma hora pensei em Clarice Lispector e na Imitação da Rosa. Não sei porque... mas lembrei... (Às vezes acho que o prosseguimento dos meus pensamentos é desviado para o Universo Sombra.)

Só vou dizer mais uma coisa: minha amiga doidinha é uma das pessoas mais íntegras que conheço.

Olívia, 2 anos, foi visitar Gabriela, 2 meses. Frases ditas durante a visita (entremeadas por uma risada excitada, quase nervosa):
- Hihi! Hihi! Dabizinha!
- Ó a mãozinha! Hihi! Ó o pezinho!
- Dabizinha bonitinha! Hihi!
- Piquininha! Hihi, hihi!
- Pode matá Dabizinha não, né?! Só matá a bruxa malvada... A Dabizinha não, né, mãe?!
A mãe quase teve um treco. A mãe da outra (e madrinha de Olívia) tranqüilizou:
- Criança é assim mesmo.
- É? E a Patrícia, por um acaso falava em te matar?
- Não, ela não falava. Mas um dia me deu água com pasta-jóia pra beber, falando que era suco de morango.

(Caros leitores, confesso: a Patrícia era eu.)

Tenho 31 anos, mas ainda não tomei jeito. Cada dia quero ser uma coisa diferente na vida:
- Atriz mambembe pobre
- Dona de boteco
- Cantora de música italiana
- Princesa do Líbano
- Rainha de bateria
- Esposa de um gênio
- Criadora de avestruz
- Missionária franciscana
- Acontecimento multimídia
- Garçom do Baltazar
Já quis até ser bibliotecária. Até freira. Agora não quero mais.
Ultimamente, ando pensando em ter um canteiro de obras. Ou cultivar hortaliças.
Ah, que cansaço! Todo dia me desfazer em outra. Lembro uma oração de Fernando Pessoa, que era ateu mas um dia escreveu assim:
"Senhor, livrai-me de mim."
Li que alguns teóricos quânticos defendem a teoria da duplicidade como essência fundamental do universo. Ou seja: com o big bang, criaram-se na verdade dois universos; um que é este que se vê e o outro exatamente igual mas oposto, e para sempre invisível: o UNIVERSO SOMBRA.
Os planetas-sombra, as estrelas-sombra e as pessoas-sombra são feitos de partículas-sombra (que nunca ninguém viu, mas são comprovadas cientificamente por causa de sua força gravitacional) e ocupam o mesmo espaço-tempo quadridimensional que nós.
Muito bem. Disso deduzi várias coisas:
1 - Fantasmas devem ser quando alguém morre neste universo e não morre no outro, ficando por aí uma sombra sem dono.
2 - Vampiros devem ser quando alguém morre no outro universo e não morre neste, ficando por aí um dono sem sombra.
3 - "Nada me completa mais do que o que me falta."
4 - A alma é sempre inteira.

A outra aflição que tenho é não poder exatamente o contrário. Ficar só vivendo, sem a consciência dos universos simultâneos que, ao me olhar, me dispersam.
Minha aflição é não poder ficar só olhando a vida, como ela é, bonita vista de fora. Um grande painel de recortes de cenas de momentos de personagens de pessoas de alma boa. (Todas as almas são boas.)
Olhando, olhando, as nuvens que viram formas que viram prédios que viram ruas que viram pombas que viram tudo (de cima as pombas têm uma visão muito boa.)
Como observadora, compreendo melhor. Como observadora, não me sinto ameaçada e então se revelam AS BELEZAS EXTRAORDINÁRIAS. Como a dor, a perda, o pratinho esmaltado da criança na creche. A solidão.
O escorpião e a barata

Estou no trânsito. Estou com sono. No céu está o sol. (Quase escuto um pianinho meio jazz, nessa hora.)
Do lado, mais à frente, pára um ônibus. Olho distraída, quando:
- Ah!
Por sua traseira, sobe uma barata gigante. A MEGA-BARATA. Não resisto ao comentário:
- Que absurda essa barata!
O taxista olha e também se posiciona:
- E coloridinha, né?!
Acima da barata, um escorpião de braço a braço e o texto: "O que ele está fazendo invadindo o seu ambiente? Caçando baratas. Ou quem sabe... você!"
Penso em como o meu é muitas vezes um mundo de ampliações, policromia, gerúndios e textos infames. Mas vamos lá. É só mais uma quinta-feira. E no céu está o sol.

segunda-feira, abril 08, 2002

Olho para a menina em preto e branco. Ela me intriga.
5 ou 6 anos, cabelos desgrenhados, sandálias ortopédicas. O vestido, curto demais e levantado pela barriga, mostra a calcinha. A postura, sempre a mesma - ombros para trás, joelhos fletidos. O queixo enterrado no peito não tira a força do olhar, que é direto. A mão segura firme a da irmã. Parece decidida. Parece não ter medo de nada.
Mas tem. Medo de soltar a outra mão e então lembrar que está sozinha no universo das coisas. Medo de não estar segurando mão nenhuma e ser tudo só uma ilusão - mão, tijolo, vida, câmera fotográfica. Medo de estar sendo observada todo o tempo por um Deus multiolhos, olho do pai, olho da mãe, lente da câmera, pessoas na rua - que ela não sabe quem são, mas tem certeza que sabem quem ela é.
A menina pensa em coisas como a vida um campo de provas. Jogo de um só jogador, que é ela. (Quase tenho certeza que ela vai sonhar com isso a vida toda, incerta de cumplicidades que mantenham sua confiança.) A menina sabe que está sozinha, mas não quer saber: será esse o seu segredo?
Olho de novo para fotografia. Sinto amor por essa menina. Amor e pena.

Essa menina sou eu.
Como quando era na infância e o lote vago do lado era um ninho de gatos. Eu sempre fui louca por gatos. Chamava "bichin, bichin", imitava "miu, miu", levava miolo de pão molhado no leite. Ficava namorando de longe, mas com O DESEJO.
- Queria ver com a minha mão!
Era só o adulto distrair e então acontecia. As palmas das mãos coçavam, os dedos não tinham sossego, até que uma pedra fosse escolhida e arremessada. Eu tinha boa pontaria. Em geral acertava a cabeça do filhote, que era rapidamente socorrido. Por mim, obviamente:
- Ah, coitadinho, vou cuidar de você.
Lavava o local do ferimento com água e sabão de coco, secava os pêlos no salão de beleza da Suzie. Passava água oxigenada, merthiolate, fazia curativo. E o pobre gatinho, doído de tanto amor.
É. Nunca entendi esse tipo de comportamento. Sei que tinha um nervoso, uma gastura, coração acelerado e dentes cerrados. Sei que foi de onde tirei que a crueldade e a inocência andam de braços dados.

Ave vira vôo
Vôo vira vento
Vento vira verde
Verde vira voz:
- Vai, vem.
A moça já é vermelha e ainda pinta o cabelo de vermelho e ainda veste um vestidinho vermelho calça sandalinha vermelha sai de casa com a blusinha vermelha dependurada no ombro, penso que para proteger do sol a cicatriz. Também vermelha. Certo que quinta-feira é dia de um anjo que gosta de vermelho - a moça leu na revista - e a moça ela mesma gosta muito de vermelho, mas isso já é O CHAMAMENTO DE MARTE. E em pé de guerra, desce a moça toc toc (a sandália faz barulho de tamanco). Vem um homem de expressão fria. Fria que digo é má. A moça não costuma fazer pré-julgamentos, mas o vermelho começa a queimar. É fogo. Frente a frente com o homem, a blusa escorrega do ombro para trás e com um rápido movimento de braço-mão ela a captura no ar. Viva! A moça segue adiante, contente e confiante. O homem, que ficou para trás, vê a cicatriz pelas costas e pensa: mulher boa de briga. Isso, a moça imagina. Porque ver, ela não viu.

Clarice disse "a galinha é o disfarce do ovo". Pois bem: talvez o ovo seja uma pista falsa da galinha. (Nada com as galinhas, nem ovos. Só estou em busca do mistério.) Para responder quem vem primeiro, primeiro tenho que saber onde começa, onde termina. E se não tiver nem começo nem fim, só a existência dilatada? Daí saímos do galinheiro e chegamos ao Deus, que - dizem - é eterno, onipresente e descontínuo (ora se disfarça de galinha, ora de ovo, ora de mim.). Deus, estando em todos os lugares, perverte ou amplia a matemática. Por exemplo, esta frase bonita: DUAS PARALELAS SÓ SE ENCONTRAM NO INFINITO. Sem Deus, o infinito é lá. Com Deus, é já.

Meu sincero agradecimento a João Pedro, o amigo de cinco anos que ontem à noite me deu de presente um tatu-bolinha tirado por ele mesmo da terra, o qual apelidamos Lucas Bruno Pedro. Presente inesperado e coincidente (esclareço que meu amigo João Pedro não lê Os desvarios de Patrícia), que muito me encheu de amor. Juntos, cuidamos de Lucas Bruno, providenciando um abrigo temporário - guardanapo + terra + folhinhas partidas + pastilhas Smint. Infelizmente, enquanto fui ao banheiro, o garçom recolheu aquela trouxinha de terra da mesa, de maneira que não cheguei a levar Lucas Bruno para casa, onde ganharia um lar fixo no vasinho de manjericão da Vandréia. Mas pude levar para casa o melhor - a lembrança do meu amigo João Pedro descobrindo:
- Ele faz cosquinha na mão da gente!
Hoje de manhã encontrei um pobre-diabo. Desses que mexe nos lixos e acorda bebendo os restos. Passou por mim na rua, carregando toda a raiva do mundo. Me olhou de cima em baixo e descarregou:
- E quebro também esses óculos, sua puta, sua cega! Óculos a essa hora da manhã!
De costas, ainda ouvi:
- Você tá morta, viu?! Você é uma assassinada!
Desci a ladeira com o coração leve. Suas palavras duras quebraram a redoma que me aprisionava. Estava cega. Estava morta. Agora sou livre de novo. (É a comprovação de que Deus também vem disfarçado de pobre-diabo.)
Apareci.
Sumi.